Mãe, Mulher e Pacificadora – celebrando o direito à vida!

As origens das celebrações das mães

A importância da mulher em graça e desgraça de gerar a vida de sua própria espécie é celebrada por praticamente todos os povos da antiguidade, principalmente na era matriarcal da humanidade, mas também no patriarcado, com perspectivas diferentes.

Quero ilustrar aqui a importância da função de receptáculo à vida que a mulher, ao ser mãe, se torna, em cada época e cultura, com significados distintos.

O fato é que todos os seres chegam à Terra, ganham o seu corpo, num ventre materno, e ganham a Luz pelo estreito e doloroso rito de passagem de um parto, em que a mulher é a representante e portadora da vida. É na predominância de sua energia feminina, receptiva, yin, que ela ganha essa graça, se olharmos para sua face luminosa, e desgraça, se olharmos para a sua face sombria. Como já dizia o poeta Coelho Neto, “ser mãe é padecer num paraíso!”

A mulher recebe uma conexão profunda com a natureza, por ser mensalmente lembrada de que é um ser cíclico, que é natureza, aceita ou negada; de que está em constante amadurecimento de uma possível vida, desejada ou rejeitada; ou de que está num possível luto de um filho que ainda não veio. Entre dor e calor humano, entre doação e cobrança, entre a cruz e a espada, entre santa ou puta, entre reinado e renúncia: a mulher se faz mãe.

A mulher sofre de um destino único ao se tornar mãe: transforma-se em uma entidade de outra categoria, entra para a mitologia: às vezes deusa, heroína ou criaturas míticas, iluminadas ou figuras sombrias, às vezes até doentias e perversas. Essa seria uma outra análise, num outro momento.

Voltando ao poder do universo feminino, as mães estão presentes na cosmogonia do universo. Para os gregos, antes da divisão dos sexos, a Deusa Caos gerou as primeiras manifestações de vida, como a noite, a escuridão, o vazio primordial, que se dividiu em dois, depois em três, gerando Gaia, Tártaros e Eros primordial, de onde tudo o que existe descende.

Para os egípcios, a grande mãe original era Nut, a deusa que ordenou o Cosmos e pariu todos os corpos celestes, os ordenando e os regendo; a Deusa da abóboda celeste que pariu todas as estrelas, que sustenta com seu manto.

Na mitologia chinesa, Nüwa (nuguá) era uma divindade feminina entre os três soberanos. Ela ordenou o Cosmos, ergueu pilares de sustentação do mundo e criou toda a humanidade, moldando os humanos a partir da argila amarela. Também salvou a humanidade de um dilúvio.

Nas versões mitológicas bíblicas, já dentro de uma cultura monoteísta, a primeira entidade feminina foi Lilith, a primeira esposa de Adão, que não aceitou se submeter ao seu marido, que era uma ordem do patriarcado, e se exilou voluntariamente, habitando o submundo, sendo a deusa mãe dos exilados e negados pelo novo mundo patriarcal que surgia. A segunda mulher, Eva, aceitou seu papel de submissão, ocupando um lugar secundário nas narrativas, mas foi responsável por ousar comer o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal e iniciar a saga humana fora do paraíso; temos a figura de Míriã, com seu canto de libertação por seu povo.

No texto cristão do Novo Testamento, a mulher ocupa também o lugar da iniciadora, da portadora da vida e da boa nova, sendo Maria, além da mãe de Jesus, a que provocou Jesus para que seu primeiro milagre ocorresse, foi Maria Madalena que anunciou a ressurreição aos discípulos, estes que estavam escondidos e amedrontados.

O fato é que a figura da mãe ou da deusa, mãe ou da grande mãe, representa uma dignificação da mulher como protagonista da história humana. Nela, destacam-se os movimentos de transformações do corpo, da vida, do mundo, através das quais todo o mundo masculino, com seus deuses e heróis, nascem e se iniciam. Como ilustra em canto o poeta e compositor Gilberto Gil, em “Super-homem – a canção”:

“Quem sabe

O super-homem venha nos restituir a glória

Mudando como um Deus o curso da história

Por causa da mulher!”

Num contexto mitológico grego, alinhado com a Astrologia ocidental, podemos ver o culto das deusas mães celebradas no início da primavera, no hemisfério norte, e no Outono, no hemisfério Sul, ou seja, nos equinócios. No primeiro mês primaveril, celebrando o retorno do Sol, entidade masculina, com deuses solares, no Equinócio da Primavera, com Sol em Áries; o segundo mês, com Sol em Touro, são celebradas as entidades femininas nas deusas da terra, as Grandes Deusas Mães: Réia, Gaia, Cibele, Deméter… deusas da agricultura, da abundância, da natureza, dos frutos da terra, da vida…

A data moderna de celebração do Dia das Mães é inspirada por uma mulher escritora e poeta, Julia Ward Howe, pacifista e abolicionista que liderou um movimento de mulheres, proclamando, em 1870, o “Apelo à feminilidade em todo o mundo”, mais tarde conhecido como a “Proclamação do dia das mães”, que foi uma reação organizada contra a carnificina da Guerra Civil Americana e da Guerra Franco-Prussiana, afirmando a importância do papel das mulheres para moldar as sociedades na vida política.

No ano de 1872, Julia solicitou que fosse oficializado o Dia das Mães pela Paz, como dia de defesa das causas defendidas por mães pacifistas, para a data do dia 2 de junho. O movimento não obteve sucesso. Foi somente depois de um ciclo de 36 anos que a filha de uma dessas mulheres que trabalhou ao lado de Julia Howe, Anna Jarvis, dedicou a vida toda e toda a sua fortuna para que essa data pudesse ser aceita, em 1908, e não desvirtuada comercialmente, mas com um propósito menos político: para ser aceita, bastava conseguir ter essa honraria às mães, como um dia de convivência e celebração de homenagem as mães, já que ela mesma era filha de uma mulher que se destacou em sua comunidade; ela dedicou esse dia à sua própria mãe.

Uma menção honrosa precisa ser feita para as “Mães da Praça de Maio”, na Argentina, que se transformaram em ícone da luta pelas mães vítimas de filhos assassinatos ou desaparecidos vítimas de estados ditadores, na América Latina.

Há, no Brasil, as mães de maio, que lutam para que seja feita justiça por conta das mortes de seus filhos nos massacres policiais, em São Paulo, no ano de 2006.

E aqui estamos, em pleno século XXI, 153 anos depois do apelo de Julia Howe, quando o seu manifesto faz todo o sentido para muitas mães que ainda estão vivendo as atrocidades das guerras entre nações, guerras civis ou guerras contra ou por golpes de estado.

Temos a guerra na Rússia-Ucrânia, Israel em ataque genocida a Gaza; conflitos em Burkina Faso envolvendo 10 nações no norte da África, tensões no mar do sul da China em escalada. Há também conflitos regionais, como guerra civil no Sudão, guerra civil no Mianmar, no sudeste asiático, devido a golpe militar, Somália, Iêmen e outros.

Segundo a universidade Uppsala, na Suécia, seriam 180 conflitos bélicos, com 59 entre nações, com ¼ da humanidade morando em regiões afetadas, com cerca de 120 milhões deslocadas de sua região ou se tornaram migrantes.

A participação das mulheres e das mães na política, dentro de uma perspectiva pacifista, ainda se faz necessária.

Deixo aqui o “Apelo de Anna” para a participação das mulheres por um mundo pacificado e para um “Dia das Mães pela Paz”, com as mulheres unidas num movimento pacifista:

Apelo à feminilidade em todo o mundo
Mais uma vez, aos olhos do mundo cristão, a habilidade e o poder de duas grandes nações se exauriram em assassinatos mútuos. Mais uma vez, as questões sagradas da justiça internacional foram confiadas à mediação fatal das armas militares. Nestes dias de progresso, neste século de luz, permitiu-se que a ambição dos governantes trocasse os caros interesses da vida doméstica pelas sangrentas trocas do campo de batalha. Assim fizeram os homens. Assim farão os homens. Mas as mulheres não precisam mais ser parte de procedimentos que enchem o globo de pesar e horror. Apesar das premissas da força física, a mãe tem uma palavra sagrada e imperativa a dizer aos filhos que devem suas vidas ao seu sofrimento. Essa palavra deve agora ser ouvida e respondida como nunca antes.
Levantem-se, então, mulheres cristãs deste dia! Levantem-se, todas as mulheres que têm corações, seja seu batismo de água ou de lágrimas! Digam firmemente: não teremos grandes questões decididas por agências irrelevantes. Nossos maridos não virão a nós, exalando carnificina, para carícias e aplausos. Nossos filhos não serão tirados de nós para desaprender tudo o que fomos capazes de ensinar-lhes sobre caridade, misericórdia e paciência. Nós, mulheres de um país, seremos muito gentis com as de outro país, para permitir que nossos filhos sejam treinados para ferir os seus. Do seio da terra devastada, uma voz se ergue junto com a nossa. Ela diz: desarme, desarme! A espada do assassinato não é a balança da justiça. O sangue não apaga a desonra, nem a violência justifica a posse. Assim como os homens, muitas vezes, abandonaram o arado e a bigorna ao chamado da guerra, que as mulheres agora deixem tudo o que resta de casa para um grande e sincero dia de conselho.
Que se reúnam primeiro, como mulheres, para lamentar e comemorar os mortos. Que então se aconselhem solenemente entre si sobre os meios pelos quais a grande família humana possa viver em paz, o homem como irmão do homem, cada um trazendo, segundo a sua espécie, a marca sagrada, não de César, mas de Deus.
Em nome da feminilidade e da humanidade, peço sinceramente que um congresso geral de mulheres, sem limites de nacionalidade, seja designado e realizado em algum lugar considerado mais conveniente e o mais breve possível, consistente com seus objetivos, para promover a aliança das diferentes nacionalidades, a solução amigável de questões internacionais e os grandes e gerais interesses da paz.
—  Julia Ward Howe 
Howe em 1895

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